Freguesia de Fornos, concelho de Freixo de Espada à Cinta, setembro de 1878.
Luís Maria nasceu alguns anos depois que os mortórios(1) tomaram conta das terras altas da região de Trás-os-Montes e do Alto Douro. Como muitos de seus conterrâneos, seria impelido e emigrar e terminaria seus dias numa terra distante, chamada Brasil.
Vida sem perspectivas
Filho de humildes agricultores, Luís cresceu em uma região onde a cada ano mais famílias abandonavam as suas terras e nunca mais regressavam, enquanto nas aldeias se intensificavam rumores sobre oportunidades de trabalho e prosperidade no Brasil.
Em dezembro de 1902, Luís casou-se com Albertina, na mesma Paróquia de Santa Eulália de Fornos onde foi batizado. Ele aos 25 e ela aos 21 anos de idade. Ela também filha de pequenos agricultores, nascida na mesma freguesia de Fornos, ambos sonhando com uma vida melhor.
Naquelas pequenas propriedades espalhadas pelas encostas do Douro, a riqueza produzida pelo vinho havia desaparecido juntamente com as videiras. A rotina agora se resumia à colheita de poucas espigas, à criação de alguns animais e à luta para sobreviver ao próximo inverno.
Foto de 2024
Paróquia de Santa Eulália de Fornos, onde Luís foi batizado e onde se casou. A igreja começou a ser construída em 1609.
Registros Perdidos
Registros imprecisos sugerem que Luís e Albertina tiveram duas filhas em Portugal, Maria Cândida em 1902, e Elisa em 1905. Anotações fragmentadas nos livros da paróquia de Fornos também sugerem que Maria Cândida teria falecido em 1907.
Mesmo diante da inconsistência destes registros, é possível presumir que as meninas existiram, mesmo que seu paradeiro tenha se perdido no tempo.Teriam morrido, vítimas da crise que assolava a região? Teriam sido esses os fatores determinantes para que a decisão de emigrar para o Brasil fosse finalmente tomada?
A história contada pelos descendentes nunca mencionou as irmãs portuguesas e tampouco se essas crianças acompanhavam Luís e Albertina, quando de sua chegada ao novo mundo. Só saberemos quando, e se for possível localizar a lista de passageiros do navio que os trouxe ao Brasil.
O que se sabe é que a travessia do Atlântico aconteceu entre outubro de 1907, quando foi emitido um passaporte para Luís, e março de 1911, quando nasceu o primeiro filho do casal no Brasil.
Os dados do passaporte de Luís Maria, transcritos do Arquivo Distrital de Bragança, Portugal
Data de criação:
28/10/1907
Natural de:
Fornos-Freixo de Espada à Cinta
Idade:
31 anos
Literacia:
não sabe escrever
Estado Civil:
casado(a)
Profissão:
Jornaleiro(5)
Destino:
Brasil.
Rumo ao desconhecido
A partir da data de emissão do passaporte, imagino que dezembro de 1907 foi o último natal com a família em Portugal. Como seria penoso e arriscado se deslocar no inverno, teriam partido por volta de abril de 1908, no final de primavera.
Não havia o que preparar nem malas a fazer. Seus poucos pertences cabiam num pequeno saco. Deixaram a aldeia encravada no alto do planalto transmontano e iniciaram a caminhada rumo ao rio Douro, que corria centenas de metros abaixo, escondido entre escarpas de xisto que pareciam rasgar a terra.
Naquele momento, a tristeza embaçava os olhos e apertava o peito. Dar o primeiro passo foi sobretudo um ato de coragem. Reviveram ali a dor e o gesto heroico de milhares de portugueses que deixaram suas casas, suas famílias e sua terra natal, para quem sabe, nunca mais voltarem.
O desafio inicial não era atravessar o Atlântico, mas conseguir chegar ao litoral. Sendo assim, o primeiro passo para deixar definitivamente a terra onde nasceram seria vencer a distância entre a aldeia e o vale do Douro, chegando à ferrovia(6).
O caminho seguia por trilhas estreitas, serpenteando entre soutos de castanheiros, amendoeiras, pequenos olivais e campos cultivados à força de braços humanos. Em alguns trechos, as pedras gastas denunciavam a passagem de incontáveis carroças e animais de carga que, durante séculos, haviam percorrido aqueles mesmos caminhos.
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Vista de Freixo de Espada à Cinta, nas terras altas de Trás-os-Montes, a partir do mirante da rodovia N221.
Provavelmente seguiram a pé por dois ou três dias, descendo as montanhas até a aldeia de Barca d’Alva, pois ali havia a possibilidade de conseguirem trabalho para comer e juntar o dinheiro necessário para as passagens de trem. Naquela época o Douro Superior era de difícil navegação(7), o que descarta a possibilidade de terem descido o rio até a cidade do Porto.
O provável caminho percorrido por Luís e Albertina. São 35-40km desde uma altitude de 708m até as margens do Douro, a 130m. Essas trilhas de cascalho batido existem até hoje, e são muito usadas por aventureiros que buscam a Rota dos Miradouros.
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Vistas das trilhas na região de Freixo de Espada à Cinta
À medida que desciam as encostas, a paisagem transformava-se lentamente. O ar fresco das terras altas dava lugar ao calor do vale. O cheiro da terra misturava-se ao das oliveiras e das estevas.
Muito abaixo, surgia finalmente uma estreita faixa azul esverdeada: o Douro, comprimido entre montanhas abruptas, avançando silencioso em direção ao Atlântico.
Aquela beleza contrastava com a realidade que conheciam. As mesmas encostas que encantavam os olhos, guardavam os “mortórios”, as vinhas secas pela filoxera que ainda marcavam a paisagem muitos anos depois da grande praga.
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Rio Douro na Congida, região de Freixo de Espada à Cinta
Paragem
A chegada a Barca d’Alva deve ter sido deslumbrante para o jovem casal, que até então nunca havia saído de sua aldeia medieval. Depois de viver entre vielas silenciosas e de muito tempo caminhando pelas trilhas, o que viram parecia pertencer a outro mundo.
Barca d’Alva, inaugurada em 1887, não era apenas uma estação ferroviária. Era uma estação internacional, onde existiam alfândega, guarda fiscal, instalações para passageiros, hotel, cocheiras e baldeações de comboios(8) portugueses e espanhóis, com intensa movimentação de trens. Era um ponto de grande circulação de pessoas e mercadorias.
Havia carroças chegando de todas as direções. Comerciantes descarregavam mercadorias, funcionários dos caminhos de ferro cruzavam a plataforma apressados, guardas fiscais vigiavam a fronteira. Viajantes carregavam malas, caixotes e embrulhos. Além do português, muitos ali vindos do outro lado da fronteira, falavam em espanhol.
No centro de tudo erguia-se a estação ferroviária. De repente, Luís, vê chegando uma grande locomotiva à frente de um comboio. Ali estava um daqueles enormes monstros de ferro que respiravam vapor, que ele tanto ouvira falar.
O ar cheirava a carvão queimado e óleo quente. Da chaminé da locomotiva subia uma espessa coluna de fumaça negra que podia ser vista à distância.
O apito cortava o vale e ecoava entre as montanhas. Homens de uniforme caminhavam ao lado dos vagões conferindo bilhetes e bagagens enquanto carregadores empilhavam malas e caixas no carro de carga.
Para quem crescera numa pequena freguesia agrícola, entre carroças puxadas por bois e caminhos de terra, o impacto causado por aquele enorme maquinário era um espetáculo que parecia anunciar a chegada de um novo tempo.
Difícil dizer quanto tempo Luís e Albertina permaneceram em Barca d’Alva, mas é plausível presumir que trabalharam ali até obterem os recursos necessários para seguirem viagem até o Porto e, quem sabe custearem o navio até o Brasil.
Comboio
Quando o comboio deixou Barca d’Alva, Luís e Albertina iniciaram uma viagem que lhes tomaria quase um dia inteiro. Pela janela desfilavam as encostas semiáridas do Douro, pequenas aldeias davam lugar a vilas maiores. À medida que o vale se alargava, surgiam barcos no rio e as vinhas em socalcos começavam a dominar a paisagem. Pequenas quintas e adegas surgiam aqui e ali.
A Linha do Douro é considerada até hoje uma das mais belas ferrovias da Europa. A viagem de trem entre Barca d’Alva e a cidade do Porto na primeira década do século XX deveria durar entre 8 e 10 horas. A distância ferroviária era de aproximadamente 203 km inteiramente percorrida por locomotivas a vapor. Os comboios de passageiros da época tinham velocidade média entre 25 e 35 km/h, considerando as muitas paragens para embarque, abastecimento de água e cruzamento com outros comboios.
Mais adiante, a Régua. Luís e Albertina, que vinham justamente de uma região profundamente marcada pela crise da viticultura, faziam agora uma parada no centro do mundo do vinho português.
Imagine a cena. Aqui o vale se abre e o Douro se alarga. Enquanto em Barca d’Alva talvez houvesse um único comboio aguardando passageiros, na Régua o movimento era muito maior. Ali havia locomotivas entrando e saindo, vagões carregados de pipas de vinho, armazéns ferroviários, carregadores, comerciantes e passageiros embarcando para várias direções.
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Peso da Régua
Régua, atual Peso da Régua era, naquela época, o coração econômico do Douro Vinhateiro. Desde a criação da Região Demarcada do Douro, em 1756, a Régua tornou-se o principal centro de concentração e distribuição do Vinho do Porto. Era dali que uma enorme quantidade de pipas seguia para Vila Nova de Gaia, onde o vinho envelhecia nas caves.
Para um passageiro de 1908-1911, a Régua era um verdadeiro nó ferroviário e comercial. Inaugurada em 1879, já era uma das mais movimentadas da Linha do Douro e, desde 1906, tornara-se também o ponto de ligação com a recém-inaugurada Linha do Corgo, que seguia para Vila Real. Isso fazia dela um dos grandes centros de comunicações do norte de Portugal.
Diante de tudo isso, não seria difícil ter a impressão de que toda a riqueza do Douro estaria passando diante dos olhos.
Luís nasceu justamente quando a filoxera ainda devastava o Douro Superior.
Agora, trinta anos depois, ele atravessava de trem a região onde o vinho começava a se recuperar graças aos enxertos americanos. As mesmas encostas que haviam produzido os “mortórios” de sua infância agora voltavam lentamente a ficar verdes.
Ironia
Ironicamente, o jovem casal estava deixando Trás-os-Montes porque a economia rural da região já não lhes oferecia perspectivas. No entanto, ao passar pela Régua, eles atravessavam justamente o centro do comércio do produto que havia moldado – e depois abalado – a vida econômica de sua terra: o vinho do Douro.
Era como se a viagem lhes mostrasse, pela última vez, a grande riqueza da região que já não conseguia sustentá-los.
Porto
Seguindo a viagem, zonas mais povoadas agora dominavam a paisagem. As chaminés das fábricas multiplicavam-se no horizonte. Os trilhos cruzavam lugares cada vez mais densos, enquanto locomotivas manobravam composições carregadas de mercadorias.
O Porto surgia diante deles como a maior cidade que haviam visto na vida. Ali viviam quase duzentas mil pessoas, mais do que toda a população de muitos concelhos de Trás-os-Montes reunidos. Para o jovem casal vindo da pequena freguesia de Fornos, a cidade devia parecer infinita.
Quando o trem chegou ao seu destino, Luís e Albertina desembarcam numa estação provisória, construída em madeira, inaugurada em 1896. O edifício monumental que conhecemos hoje ainda não existia e só seria inaugurado em 1916. Luís e Albertina possivelmente foram testemunhas oculares das obras da futura estação de São Bento. O Porto tinha, na época, cerca de 190 mil habitantes, aproximando-se de 200 mil às vésperas do censo de 1911. Era, como hoje, a segunda maior cidade de Portugal, e o grande centro comercial e industrial do norte do país, atrás apenas de Lisboa.
O Porto deveria parecer outro mundo, para alguém que havia passado a vida toda numa pequena aldeia agrícola. Ruas largas e calçadas, edifícios de quatro e cinco andares, fábricas soltando fumaça, bondes elétricos(9), carruagens por toda parte, centenas de pessoas nas ruas, cafés, hotéis, bancos e lojas. E o movimento intenso do cais do Douro e do porto marítimo.
Recomeço
Provavelmente embarcaram em Leixões(10), e viram o litoral do seu país natal sumir no horizonte a bordo de um dos navios a vapor que faziam a linha do Atlântico.
O porto de Leixões foi a grande porta de saída dos emigrantes portugueses do Norte, rumo ao Brasil, embora na região também houvesse a possibilidade de embarcar em Vigo.
Luís se estabeleceu nas imediações da rua Joaquim Carlos, no Brás, em São Paulo, onde se tornou dono de uma serraria e prosperou. Conta-se que ajudou financeiramente muitos conterrâneos a fazerem o mesmo caminho e a mudarem de vida.
Luís e Albertina tiveram cinco filhos brasileiros, três homens e duas mulheres, uma das quais minha querida avó. Segundo ela, sempre que perguntavam a seu pai sobre sua origem ou sobre seu passado, ele dizia:
– Eu venho de Portugal, venho de Trás-os-Montes!
Luís faleceu em fevereiro de 1940. Albertina morreu em abril de 1945, sozinha, num asilo em Mogi das Cruzes.
Sobre
Este texto é uma homenagem à meus bisavós e a todos os portugueses do norte que emigraram para o Brasil no início do século XX.
Busquei ser fiel ao mesclar os fatos históricos com as narrativas que ouvia de minha avó. Mesmo assim, esta é uma história que não terminou de ser contada. Registros antigos, ainda por serem descobertos, certamente trarão mais informações à saga de Luís e Albertina.
Contar a história deles é motivo de orgulho e de eterna gratidão. Afinal, se estamos aqui e somos o que somos foi graças a coragem e a audácia dessa gente que decidiu se lançar ao desconhecido, em busca de uma vida melhor para si e para seus descendentes.
(1) Mortórios: Enormes áreas de vinha outrora produtivas, que secaram por completo. Ficaram conhecidas na região pelo nome de “mortórios”.
(2) Filoxera é um pulgão sugador de seiva nativo da América do Norte que ataca as folhas e, principalmente, as raízes da videira. Nas videiras europeias (Vitis vinifera), a sua picada causa tumores nas raízes, impedindo a absorção de nutrientes e matando a planta em poucos anos. O inseto chegou à Europa na década de 1860, introduzido acidentalmente por botânicos e produtores que importavam videiras americanas para testar a resistência a outros fungos. O Douro foi a primeira região afetada em Portugal (1865). A praga dizimou a maior parte dos vinhedos da região nas décadas seguintes.
(3) A salvação surgiu por volta de 1880–1890. Descobriu-se que as raízes das videiras americanas eram imunes ao inseto. Os produtores passaram a plantar a raiz americana e a enxertar a casta europeia no topo.
(4) No início do século XX, o colapso econômico da região nordeste de Portugal foi potencializado pelo relevo fortemente acidentado e montanhoso e pela distância do litoral e dos grandes centros de decisão, o que tornava a região voltada para si, “vivendo vida rude e selvagem”, levando as suas populações a criar mecanismos de autorregulação. Essa interioridade, agravada pela ausência de acessibilidades, fazia das terras altas uma região quase esquecida, confinada a mercados limitados, privada de escolas, sem vias de comunicação e com escassez de capitais.
(5) Jornaleiro era um trabalhador rural eventual contratado à jorna, ou seja, alguém que prestava serviços agrícolas sazonais e recebia um pagamento diário, sem possuir terras próprias ou com propriedades insuficientes para o próprio sustento. Enquadrava as camadas mais pobres e vulneráveis da população rural, que dependiam dos grandes proprietários ou lavradores locais para garantir o sustento diário.
(6) O percurso entre a freguesia de Fornos e a ferrovia podia ser feito por caminhos de terra, em carroças, sobre animais de carga ou, menos provável, aproveitando embarcações que navegavam pelo rio. Não se sabe qual dessas alternativas Luís e Albertina utilizaram, mas qualquer uma delas exigia alguns dias de viagem naquela época.
(7) No final do século XIX existiam três tipos principais de embarcações na região: Barcos rabelos, destinados principalmente ao transporte de vinho, pequenos barcos locais para travessias e transporte regional e alguns vapores fluviais, mas concentrados principalmente no Baixo Douro, mais próximo do Porto. O Douro Superior, no trecho de Fornos e Freixo de Espada à Cinta até Pocinho, era um dos trechos mais difíceis do rio. Antes da construção das barragens do século XX, o rio tinha trechos rápidos, corredeiras, afloramentos rochosos e variações muito grandes de nível. A navegação existia, mas não funcionava como uma “linha regular de passageiros”, como imaginamos hoje.
(8) Em Portugal os trens são chamados de comboios.
(9) No Porto os elétricos já circulavam desde a década de 1890.
(10) O porto de Leixões, na cidade do Porto, foi, ao lado de Lisboa, uma das principais portas de saída dos emigrantes portugueses.
Bibliografia
- A Emigração do Distrito de Bragança para o Brasil no Século XIX (1884-1890) por Maria da Conceição Cordeiro Salgado
- A emigração portuguesa para o Brasil no contexto das grandes migrações europeias: o caso do distrito de Bragança (1850-1911), por Maria da Conceição Cordeiro Salgado
- Arquivo Distrital de Bragança
- Concelho de Freixo de Espada à Cinta
- SIAN - Sistema de Informações do Arquivo Nacional
- Arquivo Público do Estado de São Paulo
- Acervo pessoal da família