Futebol e integridade

Texto adaptado da revista Veja 2367, de 02/04/2014

O futebol é um bom teste para estudar a diferença entre os países. Em campeonatos que reúnem atletas de várias nações, os jogadores tendem a atuar como se estivessem em sua própria terra.

Assim, ao cometerem uma falta, eles deixam transparecer o comprometimento que tem às regras, o desleixo que nutrem pela autoridade ou a vontade de se adaptar às normas vigentes.

Um exemplo recente de dignidade em campo ocorreu na Alemanha, no dia 8 de março entre o Werder Bremen e o Nuremberg. O alemão Aaron Hunt caiu na área e o juiz deu pênalti. Hunt, do Werder, foi até o juiz e explicou que tropeçara sozinho. Os adversários agradeceram. O juiz recuou da decisão.

Em 2012, o alemão Miroslav Klose, que no Brasil poderá ultrapassar Ronaldo e se tornar o maior artilheiro em Copas do Mundo(1), marcou um gol irregular pela Lazio, na Itália. Para desespero dos colegas de time, ele foi ao ouvido do juiz e admitiu que tocou a bola com a mão, sem querer. O gol foi anulado e seu time perdeu a partida. “O gesto que merece um prêmio”, disse o então zagueiro do Napoli, Paolo Cannavaro.

Tanto na Alemanha quanto na Inglaterra atletas que se jogam na grama e tentam ludibriar o juiz muitas vezes são execrados pelos próprios torcedores. Provocar situações falsas para tirar proveito é algo que merece ampla condenação.

O brasileiro Neymar, do Barcelona, já levou para a Espanha sua fama de “cai-cai”. Não existe um estudo que permita uma comparação entre o comportamento de diferentes nacionalidades no futebol, mas é claro que jogadores brasileiros carregam para dentro do campo o desprezo que tem pelas regras.

O mesmo raciocínio vale para os argentinos. Não por acaso o lance mais famoso no país é o gol de mão de Maradonna, na Copa de 1986, vencida pela Argentina.

Em países como a Alemanha, os erros da arbitragem são menores porque os jogadores acabam ajudando o juiz. O mesmo princípio explicaria porque o trabalho da polícia e das agências anticorrupção parecem tão mais fácil.

(1) Miroslav Klose ultrapassou Ronaldo como maior artilheiro das Copas do Mundo na Copa do Mundo FIFA de 2014, realizada no Brasil. O gol que o colocou em primeiro lugar com 16 gols foi marcado na semifinal contra a própria seleção brasileira, na goleada por 7 a 1, no dia 8 de julho de 2014. Ele superou o recorde de 15 gols que pertencia a Ronaldo.

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