Durante 28 anos, uma barreira de concreto separou famílias, dividindo a cidade e o mundo. Mas o Muro de Berlim foi muito mais do que uma simples fronteira: tornou-se o símbolo mais poderoso da Guerra Fria e um marco da insanidade humana. E, no fim, um dos maiores símbolos da liberdade.
Berlim, madrugada de 13 de agosto de 1961.
Enquanto a maioria dos habitantes da cidade dormia, o governo da Alemanha Oriental deu início a chamada “Operação Rosa“. Soldados, policiais e milicianos começaram a fechar ruas, instalar barreiras e estender arame farpado no centro da cidade de Berlim, ao longo da linha de demarcação que separava o setor soviético (Berlim Oriental) dos setores ocidentais (americano, britânico e francês).
Locais emblemáticos próximos à Potsdamer Platz e ao redor do Portão de Brandemburgo viram as primeiras cercas e rolos de arame farpado estendidos sobre o asfalto.
Ruas foram interrompidas, linhas de transporte foram cortadas, famílias ficaram separadas. Amigos que moravam a poucos metros uns dos outros passaram a viver em países diferentes. Pessoas que trabalhavam em um setor e moravam no outro tiveram que reorganizar suas vidas.
E em alguns lugares a divisão foi literalmente absurda.
Um dos exemplos mais dramáticos foi a Bernauer Straße. Em determinado trecho, os prédios de um lado da rua pertenciam ao setor soviético, enquanto a calçada em frente pertencia ao setor francês, portanto a Berlim Ocidental. Quando as autoridades começaram a fechar portas e janelas dos edifícios, moradores tentaram escapar pelas janelas dos andares superiores, e algumas pessoas saltaram para a calçada ocidental. As imagens desses saltos percorreram o mundo.
Os trilhos de trens urbanos (S-Bahn) e metrôs (U-Bahn) que conectavam os dois lados da cidade foram cortados ou bloqueados fisicamente nas estações de transição já nas primeiras horas da madrugada.
Começava assim a construção do que se tornaria o Muro de Berlim.
Essas primeiras cercas improvisadas foram, ao longo dos dias, semanas e meses seguintes, substituídas por blocos de concreto e tijolos, expandindo-se rapidamente até cercar completamente os 155 quilômetros de perímetro de Berlim Ocidental, uma barreira que permaneceria de pé por mais de 28 anos.
Mas sua história começara muito antes.
Como Berlim se tornou um cidade dividida?
fortemente subordinada à influência soviéticaPara entender o Muro, é preciso voltar ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Em maio de 1945, a Alemanha nazista foi derrotada, e o país foi ocupado pelas quatro potências vencedoras: Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França.
A Alemanha foi dividida em quatro zonas de ocupação, e Berlim apresentava uma situação ainda mais peculiar.
Embora a cidade estivesse localizada no interior da zona de ocupação soviética, sua importância política fez com que ela também fosse dividida em quatro setores: americano, britânico, francês e soviético.
Assim, surgiu uma situação extraordinária: uma cidade controlada por quatro potências, localizada no coração do território que estava sob controle soviético.
Os três setores ocidentais formariam posteriormente aquilo que ficou conhecido como Berlim Ocidental. O setor soviético transformou-se em Berlim Oriental.
A divisão inicialmente deveria ser provisória, mas as relações entre os antigos aliados da Segunda Guerra Mundial deterioraram-se rapidamente. O mundo entrava na Guerra Fria.
Em 1949 foram criados dois Estados alemães: a República Federal da Alemanha (RFA), no ocidente, e a República Democrática Alemã (RDA), no lado oriental.
A Alemanha Ocidental (RFA) passou a ter governo próprio, mas soberania limitada e sob o Estatuto de Ocupação, sujeita a poderes de controle dos Estados Unidos, reino Unido e França. A Alemanha Oriental (RDA) também passou a ter governo próprio, caracterizado como uma ditadura socialista de partido único, e fortemente subordinado à influência soviética.
Berlim Ocidental, entretanto, continuou ocupada/ administrada pelas três potências.
Em 1955 a Alemanha Ocidental tornou-se soberana com os Tratados de Paris, mas os direitos e responsabilidades dos Estados Unidos, Reino Unido e França sobre o país e sobre Berlim Ocidental permaneceram. Nesse mesmo ano, a União Soviética declarou que a Alemanha Oriental era um Estado soberano, mas, na prática, pouca coisa mudou: a RDA permaneceu firmemente integrada ao bloco soviético, seguindo as diretrizes de Moscou.
Berlim, porém, continuava dividida. E sua situação era particularmente delicada: Berlim Ocidental era uma espécie de ilha cercada pelo território da Alemanha Oriental.
O primeiro bloqueio
A primeira grande crise ocorreu em 1948.
Em junho daquele ano, a União Soviética bloqueou as principais ligações terrestres e fluviais entre as zonas ocidentais da Alemanha e Berlim Ocidental. A intenção era pressionar Estados Unidos, Reino Unido e França a abandonar sua posição na cidade.
Berlim Ocidental ficou isolada. Havia, entretanto, uma alternativa: o céu.
Os Aliados organizaram uma gigantesca operação de transporte aéreo. Aeronaves americanas e britânicas começaram a transportar para a cidade alimentos, carvão, medicamentos e outros produtos essenciais.
Foi a famosa Ponte Aérea de Berlim.
A operação chegou a uma frequência impressionante: no auge, um avião chegava ao aeroporto de Tempelhof a cada 45 segundos aproximadamente.
O bloqueio terminou em maio de 1949, quando a União Soviética reabriu as ligações terrestres.
A crise teve uma consequência que ultrapassou muito a questão do abastecimento: Berlim transformou-se definitivamente em um dos principais símbolos do confronto entre os dois sistemas políticos.
Quem quer viver no lado comunista?
A existência de Berlim Ocidental dentro do território da Alemanha Oriental criou um problema enorme para o governo comunista. Até 1961, apesar das crescentes restrições, ainda era possível atravessar determinados pontos entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental.
E isso criava uma espécie de “porta de saída” da Alemanha Oriental. A situação era particularmente grave porque milhões de pessoas estavam deixando a RDA.
Desde a criação da Alemanha Oriental, em 1949, até a construção do Muro, aproximadamente 2,5 milhões de pessoas haviam deixado o país, muitas delas jovens e qualificadas.
Para o governo da RDA, aquilo representava um desastre econômico e político. Não era apenas uma questão de perder trabalhadores.
A situação era uma vitrine escancarada de propaganda negativa para o governo. Cada pessoa que fugia era uma demonstração pública do fracasso do regime comunista. Afinal, se sempre havia alemães orientais dispostos a arriscar tudo para fugir para o lado ocidental, por que nunca houve ninguém querendo fugir para o lado comunista?
E Berlim era o lugar onde essa fuga podia acontecer. O governo comunista precisava fechar a porta.
"Ninguém tem a intenção de construir um muro"
Em 15 de junho de 1961, Walter Ulbricht, líder da Alemanha Oriental, respondeu a uma pergunta na TV Estatal sobre a possibilidade de construir uma barreira entre os setores de Berlim, com uma frase que se tornaria célebre:
“Ninguém tem a intenção de construir um muro”.
A declaração tornou-se uma das ironias mais famosas da história da Guerra Fria. Menos de dois meses depois, o muro começaria a ser construído. E continuaria a ser ampliado e aperfeiçoado nos 28 anos seguintes.
Tanques americanos e soviéticos frente a frente
Os fatos centrais desse episódio são confirmados pelo National Archives e pelo Office of the Historian do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
O Muro tinha apenas algumas semanas de existência e estava ainda em construção quando Berlim viveu um dos momentos mais perigosos da Guerra Fria.
Em outubro de 1961, uma disputa aparentemente burocrática sobre quem tinha autoridade para controlar a entrada de americanos em Berlim Oriental transformou-se numa confrontação militar entre Estados Unidos e União Soviética.
O problema começou quando autoridades da Alemanha Oriental passaram a tentar controlar a entrada de funcionários americanos em Berlim Oriental. Os Estados Unidos recusaram-se a aceitar essa mudança, pois isso poderia significar reconhecer, na prática, a autoridade da RDA sobre os direitos das potências ocupantes.
Em 26 de outubro, os americanos deslocaram tanques M48 para a região do Checkpoint Charlie. No dia seguinte, os soviéticos responderam enviando seus próprios tanques.
De repente, os dois maiores arsenais militares do mundo estavam frente a frente no meio de Berlim, separados por uma distância de somente 90 metros, com tanques americanos e soviéticos preparados para um eventual combate
Durante horas de tensão, o mundo aguardou o próximo movimento, que se não fosse a retirada de um dos lados poderia significar o início de uma nova guerra. Mas, na manhã de 28 de outubro, os tanques soviéticos começaram a recuar. Pouco depois, os americanos fizeram o mesmo.
O confronto havia terminado sem um único tiro. O Muro de Berlim tinha pouco mais de dois meses e já havia colocado Estados Unidos e União Soviética à beira de um confronto militar direto. As fotografias daqueles tanques frente a frente permaneceriam como uma das imagens mais impressionantes da Guerra Fria.
Checkpoint Charlie
Fonte: “Uma Cidade Despedaçada: A Construção do Muro de Berlim”. Para mais informações, visite Coleções Históricas da CIA.
imagem de Wikimedia Commons
25/10/1961: Tanques americanos avançam em direção ao Checkpoint Charlie.
imagem de Wikimedia Commons
26/10/1961: Após serem inicialmente detidos na fronteira, diplomatas americanos são escoltados até Berlim Oriental pela Polícia Militar dos EUA.
imagem de Wikimedia Commons
28/10/1961: Um soldado americano monitora os movimentos dos tanques soviéticos durante o confronto no Checkpoint Charlie.
Não era apenas um muro
Quando pensamos no Muro de Berlim, normalmente imaginamos uma parede de concreto. Mas era algo muito mais complexo.
Na configuração final, o muro tinha aproximadamente quatro metros de altura e possuía um tubo arredondado no topo para dificultar a escalada.
Quem estava no lado ocidental via um simples paredão, e podia caminhar tranquilamente pelas calçadas ao longo do muro. Mas, quem vivia no lado oriental precisava, para se aproximar do muro, atravessar uma área que ficou conhecida posteriormente como “faixa da morte“, uma zona militarizada de terra vazia com as seguintes características:
- Armadilhas e barreiras: Incluía valas antiveículos, cercas, cercas elétricas, arames farpados, obstáculos de concreto, sistemas de alarme, cães de guarda e outros elementos de segurança.
- Chão de areia: O solo era coberto por uma camada de areia ou cascalho para dificultar a locomoção de quem tentasse atravessar.
- Extensão e largura: Tinha dezenas de metros de largura ao longo dos 155 km de fronteira que separavam Berlim Ocidental da Alemanha Oriental. Deste total, 43 km correspondiam à fronteira dentro da própria cidade, separando Berlim Ocidental de Berlim Oriental.
- Torres de vigilância: Além de bunkers, o sistema chegou a contar com 302 torres de observação, que garantiam visão panorâmica aos guardas de fronteira.
- Ordem para atirar: Os guardas de fronteira da Alemanha Oriental tinham ordens expressas para disparar contra qualquer pessoa que invadisse a área de segurança.
Berlinermauer
Muro de Berlim. Foto de Thierry Noir, tirada em 1986 em Bethaniendamm, no bairro de Kreuzberg. Fonte: Wikimedia Commons
Como Berlim Ocidental sobrevivia cercada pela Alemanha Comunista?
Esta é uma das questões mais interessantes sobre a cidade dividida. Como era possível uma parte de Berlim pertencer ao Ocidente e estar completamente cercada pelo território da Alemanha Oriental?
A resposta está nos acordos estabelecidos entre as quatro potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Berlim Ocidental não era simplesmente uma cidade da Alemanha Ocidental. Sua situação jurídica era especial.
O acesso entre Berlim Ocidental e a Alemanha Ocidental era realizado por rotas de trânsito específicas e corredores aéreos estabelecidos pelos Aliados. Havia também conexões ferroviárias e fluviais.
Após o Bloqueio de 1948-1949, o Ocidente tinha plena consciência de que o acesso à cidade era uma questão estratégica. Na prática, produtos e pessoas chegavam a Berlim Ocidental por rodovias, ferrovias, vias fluviais e corredores aéreos.
Havia pontos de controle e regras específicas, mas as potências ocidentais mantinham o direito de acesso à cidade.
Um acordo de 1971 estabeleceu que o tráfego civil de pessoas e mercadorias entre Berlim Ocidental e a Alemanha Ocidental deveria ser facilitado e permanecer desimpedido nas rotas de superfície estabelecidas.
As pessoas podiam viajar para o Ocidente?
Os habitantes de Berlim Ocidental podiam viajar até a Alemanha Ocidental de avião, trem ou automóvel. Como eram obrigados a passar pelo território da Alemanha Oriental, utilizavam corredores e rotas específicas.
Um dos principais pontos rodoviários era Dreilinden, ligado à rota de trânsito em direção à Alemanha Ocidental.
Para os habitantes da Alemanha Oriental, porém, a situação era completamente diferente. O governo comunista controlava rigidamente as viagens. Tentar sair do país sem autorização era tratado como uma tentativa de fuga, e portanto um crime.
Visitar familiares no Ocidente também dependia de autorização. E, mesmo quando uma visita era permitida, o controle era rigoroso.
O "Palácio das Lágrimas"
Um dos lugares que melhor representa essa realidade ficava na estação Friedrichstraße. Ali funcionava um importante posto de passagem entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental.
O edifício ficou conhecido como Tränenpalast, ou “Palácio das Lágrimas”.
Centenas de pessoas atravessavam diariamente a estação, mas os encontros entre habitantes dos dois lados eram frequentemente marcados por despedidas dolorosas.
Familiares vindos do Ocidente visitavam parentes em Berlim Oriental e, no momento da partida, não sabiam quando — ou mesmo se — voltariam a vê-los.
O nome popular do local nasceu justamente dessas despedidas.
As estações-fantasma
A divisão chegou até mesmo ao subterrâneo. Algumas linhas do metrô e do S-Bahn de Berlim Ocidental atravessavam território de Berlim Oriental.
Depois da construção do Muro, determinadas estações do lado oriental foram fechadas. Os trens continuavam passando, mas não paravam, e as plataformas ficavam vazias, vigiadas por guardas armados.
Essas estações passaram a ser conhecidas como “estações-fantasma”.
Era uma experiência extraordinária: um trem de Berlim Ocidental atravessava Berlim Oriental, passava por estações iluminadas e silenciosas onde ninguém podia embarcar ou desembarcar, e seguia viagem até retornar ao lado ocidental.
A estação Friedrichstraße era uma exceção importante, pois funcionava como ponto de passagem controlado.
A vida cotidiana nos dois lados
É importante salientar que a vida em Berlim Oriental não era simplesmente uma vida de sofrimento permanente, nem a vida em Berlim Ocidental era um mar de rosas.
A diferença fundamental estava nas liberdades individuais, nas liberdades políticas, no direito de ir e vir e no sistema econômico e social em que cada lado estava inserido.
Na Alemanha Oriental, o Estado socialista controlava grande parte da economia e da vida política. O partido dominante, o SED, exercia o poder político, enquanto a Stasi, a polícia secreta e serviço de segurança do Estado, mantinha uma extensa rede de vigilância.
Ao mesmo tempo, havia uma vida cotidiana normal: escolas, empregos, moradias, esportes, cultura e relações familiares. As pessoas continuavam trabalhando, estudando, casando, criando filhos, fazendo compras, indo ao cinema e levando suas vidas.
A repressão do regime comunista não significava que cada cidadão estivesse permanentemente sendo perseguido. Significava que havia limites políticos e pessoais que não podiam ser ultrapassados sem risco.
E havia uma consciência permanente de que o Estado possuía instrumentos para vigiar e punir seus cidadãos. E que estes instrumentos seriam usados sem a menor cerimônia.
Berlin wall map
Fonte: Wikimedia Commons
- Linha sólida: muro de Berlim
- Linha pontilhada: limites de Berlim Oriental
- Pontos azuis: ckeckpoints para alemães
- Pontos vermelhos: ckeckpoints para alemães e não alemães
Fugas: quanto vale a liberdade?
Apesar do sistema de segurança, milhares de pessoas tentaram fugir. Algumas conseguiram, outras foram presas e muitas morreram.
Segundo a Fundação do Muro de Berlim e o governo de Berlim, existem pelo menos 140 mortes relacionadas à fronteira do Muro entre 1961 e 1989.
As tentativas de fuga produziram histórias extraordinárias, e o Museu do Muro, em Checkpoint Charlie, conserva objetos e reconstruções relacionados a alguns desses casos.
Essas histórias demonstram que a liberdade é um dos bens mais preciosos do ser humano. Não importa quão sofisticada ficava a segurança da fronteira, as pessoas seguiam tentando atravessá-la, seja com planos simples, engenhosos ou criativos, mas sempre ousados. Mesmo com todas as probabilidades contra elas, mesmo diante do risco de serem mortas pelos guardas de fronteira.
Você pode conferir algumas das histórias dessas pessoas no ebook a seguir.
Símbolo da Guerra Fria
A divisão de Berlim não era apenas um problema alemão. A cidade se tornou o principal palco simbólico da Guerra Fria. Em 1963, o presidente americano John F. Kennedy visitou Berlim Ocidental e, diante de uma enorme multidão, declarou:
“Ich bin ein Berliner.”
Eu sou um berlinense
Kennedy estava demonstrando solidariedade à população de uma cidade que, segundo suas próprias palavras, representava a luta pela liberdade. A frase tornou-se uma das mais famosas da política do século XX.
Vinte e quatro anos depois, outro presidente americano pronunciaria outra frase que ficaria associada ao Muro. Em 12 de junho de 1987, diante do Portão de Brandemburgo, Ronald Reagan desafiou o líder soviético Mikhail Gorbachev:
“Mr. Gorbachev, tear down this wall!“
Sr. Gorbachev, derrube este muro!
Naquele momento, porém, ninguém tinha ideia que faltavam pouco mais de dois anos para o Muro realmente cair.
O começo do fim
Durante a década de 1980, a situação começou a mudar. A União Soviética enfrentava dificuldades econômicas e políticas, e Mikhail Gorbachev introduziu políticas de glasnost e perestroika (transparência e reestruturação).
Em outros países do bloco comunista, movimentos de oposição ganhavam força.
Na Polônia, o Solidariedade havia desafiado o regime. Na Hungria, o governo começava a desmontar a Cortina de Ferro, na Alemanha Oriental, manifestações crescentes passaram a exigir liberdade de circulação e reformas políticas.
Em Leipzig, manifestações contra o governo comunista começaram em 4 de setembro de 1989, saindo da Igreja de São Nicolau após cultos pela paz, e começaram a se repetir às segundas-feiras, tornando-se especialmente importantes. As palavras de.ordem dos manifestantes eram:
“Wir sind das Volk!”
Nós somos o povo!
Em 9 de outubro de 1989, mais de 70 mil pessoas tomaram as ruas de Leipzig, num protesto pacífico e histórico. Desta vez, as autoridades não ordenaram uma repressão violenta em larga escala.
O medo começava a mudar de lado.
O dia em que o muro caiu
Durante toda a existência do Muro, os moradores do lado ocidental tiveram livre acesso ao lado oriental, mas o contrário não. Assim, no início de novembro de 1989, a pressão sobre o governo da Alemanha Oriental era enorme, e o regime comunista precisava apresentar novas regras para viagens.
No dia 9 de novembro de 1989, diante das pressões contra o controle de passagem do muro, o porta-voz da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, disse durante uma coletiva de imprensa, que o governo permitiria viagens da população ao lado ocidental. Questionado sobre quando essa mudança entraria em vigor, sua resposta ficou famosa:
“Sofort! Unverzüglich!”
Imediatamente! Sem demora!
A notícia espalhou-se rapidamente.
Isso bastou para que a população do lado oriental se aglomerasse nos limites do Muro. Milhares de berlinenses orientais se dirigiram aos postos de fronteira e se agruparam diante das guaritas de bloqueio, repetindo em coro:
“Abram os portões!”
Do lado ocidental, outra massa de gente também gritava as mesmas palavras, insuflando ainda mais a multidão.
Frente à aglomeração crescente, os guardas do regime comunista não sabiam o que fazer. Pediam instruções em telefonemas desesperados, mas seus superiores também não sabiam como agir.
Até que, no posto da Bornholmer Straße, a pressão tornou-se insustentável. Pouco depois das 23 horas, os guardas cederam e abriram os portões. E, um a um, os demais pontos de controle ao longo do Muro foram sendo abertos.
E algo extraordinário aconteceu. Depois de 28 anos, os berlinenses começaram simplesmente a atravessar de um lado para o outro… E o Muro deixou de funcionar.
O dia seguinte
Na manhã seguinte, as imagens eram inacreditáveis.
Multidões continuavam a se aglomerar ao longo do Muro, mas desta vez para comemorar. Enquanto restaurantes do lado ocidental ofereciam bebidas gratuitamente ao berlinenses vindos do lado oriental, pessoas subiam no muro e outras utilizam martelos e cinzéis para arrancar pedaços de concreto. Esta últimas ficaram conhecidas como Mauerspechte, ou “pica-paus do muro”.
A festa durou dias. O Muro, que durante décadas havia provocado medo, agora era um lugar de celebração.
Depois da abertura, muitos imaginavam que a barreira permaneceria durante algum tempo como monumento, mas não foi o que aconteceu.
Grande parte do Muro foi desmontada rapidamente. Entre 1990 e 1991, aproximadamente 155 quilômetros de fortificações foram desmontados, juntamente com 302 torres de observação, 20 bunkers e vários postos de fronteira.
Hoje, a maior parte do Muro desapareceu da paisagem de Berlim. Mas seus vestígios continuam espalhados pela cidade.
Um dos mais famosos é a East Side Gallery, um trecho de aproximadamente 1,3 quilômetro que, em 1990, foi transformado por 118 artistas de 21 países numa enorme galeria de arte a céu aberto. É importante lembrar que a East Side Gallery não é uma réplica. Ela ocupa um trecho real do antigo Muro de Berlim.
Fonte: Wikimedia Commons
Reunificação da Alemanha
A queda do Muro não significou imediatamente a reunificação alemã. O processo político continuou durante quase um ano.
Em março de 1990 ocorreram eleições livres na Alemanha Oriental. Em agosto, o Parlamento da RDA aprovou a adesão à República Federal da Alemanha.
Em 12 de setembro de 1990, Estados Unidos, Reino Unido, França, União Soviética e as duas Alemanhas assinaram o Tratado Dois Mais Quatro, que estabeleceu o fim dos direitos e responsabilidades das quatro potências sobre Berlim e sobre a Alemanha como um todo.
Finalmente, em 3 de outubro de 1990, a reunificação alemã se tornou realidade. À meia-noite, a bandeira da Alemanha foi hasteada diante do Reichstag.
No dia 15 de março de 1991 o Tratado Dois Mais Quatro entrou em vigor, encerrando definitivamente os direitos das quatro potências sobre Berlim.
Em 31de agosto de 1994 as últimas tropas soviéticas deixaram Berlim. E em 8 de setembro do mesmo ano ocorreu a cerimônia de despedida das tropas americanas, britânicas e francesas, marcando a retirada militar definitiva dos Aliados ocidentais de Berlim.
A divisão que havia começado depois da Segunda Guerra Mundial estava finalmente e oficialmente encerrada.
O paradoxo do Muro
O Muro de Berlim permaneceu de pé por 28 anos, construído para demonstrar a força do regime da Alemanha Oriental.
Durante décadas, pareceu funcionar, e Berlim tornou-se o principal símbolo da Guerra Fria, da disputa ideológica entre o mundo livre capitalista e o regime comunista.
Quando finalmente caiu, não foi destruído por um exército estrangeiro. Foi superado de dentro para fora, pela própria força do povo oprimido pelo regime.
O Muro não era uma fronteira como qualquer outra, destinada simplesmente a controlar quem entrava num território. Era, principalmente, uma fronteira destinada a impedir que seus próprios cidadãos deixassem o país.
Essa talvez seja sua característica histórica mais importante, e por isso, o Muro tornou-se tão poderoso como símbolo, que não representava apenas a divisão entre duas ideologias. Representava principalmente a pergunta fundamental:
Até onde um Estado pode cercear a liberdade dos seus cidadãos e controlar onde e como querem viver?
E, como reflexão final, uma frase de Hayek:
“Existe toda a diferença do mundo entre tratar as pessoas com igualdade e tentar torná-las iguais”.
Por isso, até hoje, nunca se viu uma única pessoa tentando fugir para um país socialista e TODOS os regimes socialistas implodiram ou estão em vias de implodir.
Sobre a imagem do título
Mein Gott, hilf mir, diese tödliche liebe zu überleben
“Meu Deus, ajude-me a sobreviver a este amor mortal”
A obra recria a fotografia original de Régis Bossu, de 07/10/1979.
O mural pintado em 1990 e restaurado em 2009 pelo artista russo Dmitri Vrubel na East Side Gallery, (trecho autêntico do antigo Muro de Berlim, na Mühlenstraße). A obra retrata o “beijo fraternal socialista” entre Leonid Brezhnev(1) e Erich Honecker(2).
(1) Leonid Brezhnev (1906-1982) foi o líder da União Soviética, secretário-geral do Partido Comunista da URSS de 1964 a 1982.
(2) Erich Honecker (1912-1994) foi o principal líder da República Democrática Alemã (Alemanha Oriental) e secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) de 1971 a 1989.
Autor: Cleber Campos
Data: 10/05/2026
Fonte: Acervo pessoal
Fontes históricas e institucionais
Este artigo foi elaborado a partir de documentação histórica de instituições alemãs e internacionais, incluindo a Cidade de Berlim, a Fundação do Muro de Berlim, o Deutsches Historisches Museum, o Office of the Historian do Departamento de Estado dos Estados Unidos, a Biblioteca Presidencial Ronald Reagan e o Governo Federal da Alemanha.
- Berlin.de — História do Muro de Berlim
- Berlin Wall Memorial / Stiftung Berliner Mauer
- U.S. Army - Standoff in Berlin, October 1961
- U.S. National Archives - The 1961 Berlin Crisis
- U.S. Office of the Historian — Berlin Airlift
- U.S. Office of the Historian — Berlin Crisis 1958–1961
- Deutsches Historisches Museum — histórias de fuga
- Governo Federal da Alemanha — Queda do Muro, 9 de novembro de 1989
- Governo Federal da Alemanha — Reunificação, 3 de outubro de 1990